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terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Banco da Amizade (Friendship Bench)


 

 

Dia desses, me deparei com uma reportagem antiga... Quatro anos já podemos considerar antiga, né?

Você pode ler a reportagem AQUI.

Enfim, era uma reportagem sobre o Banco da Amizade, uma proposta iniciada no Zimbabwe ou Zimbábue, por um psiquiatra atuante na universidade e na saúde pública de lá.

A reportagem em si já instiga a pensar, em especial para quem trabalha diretamente com saúde mental na saúde pública com inserção territorializada. 

Decidi começar uma despretensiosa pesquisa sobre o Banco da Amizade e seu criador, para melhor compreender a proposta.

Escrevo este post para compartilhar o que encontrei. Não se trata de um post com ambições jornalísticas, mas uma simples compilação e exposição de informações pesquisadas e articuladas.

A figura central deste post é o psiquiatra Dixon Chibanda, psiquiatra, professor de Psiquiatria e Saúde Pública na Universidade de Zimbábue, professor associado de Saúde Mental Global da London School of Hygiene & Tropical Medicine e diretor da African Mental Health Research Initiative (AMARI).

No ano de 2006, ele se deparava com o seguinte cenário: 

  • entre 14 e 20 psiquiatras no país para uma população de 14 milhões de pessoas; 
  • profissionais de Medicina e Enfermagem em unidades de saúde também em número insuficiente;
  • um país assolado pelo HIV, desemprego, violência doméstica e mais mazelas.

Diante desse cenário desolador, Dixon Chibanda teve a ideia de formar o pessoal da Enfermagem em estratégias terapêuticas em saúde mental. Mas não havia número suficiente de profissionais para garantir a eficácia da iniciativa.

A ideia seguinte foi a de formar mulheres idosas ("vovós", como aparecem nas notícias) para realizar o que compreendi como escuta e aconselhamento terapêutico. Essa escolha é atribuída pelo fato dessa população ser considerada guardiã da cultura e sabedoria locais. Há também a preocupação em combater o estigma das manifestações do sofrimento psíquico.

Esta iniciativa foi nomeada de Friendship Bench ou Banco da Amizade. O site é bem completo, atualizado e recomendo uma visita! 💓

Segundo informações, são ofertadas seis semanas de treinamento, com abordagem nos fundamentos da terapia cognitivo-comportamental.

As mulheres idosas também contribuíram no desenho da proposta, contestando o uso da linguagem científica e sugerindo termos mais próximos da realidade local.

Adorei conhecer a palavra "kufungisisa" 💘, que significa "pensar demais" em shona, uma língua local do Zimbábue, associada à depressão. (Apesar de que me remete mais à ansiedade... Mas quem está disputando diagnósticos aqui?). Há uma apropriação enorme na internet dessa palavra, que vale a pena conferir. Eu indico essa leitura AQUI, trecho de Culture And Common Mental Disorders In Sub-Saharan Africa.

O atendimento tem lugar em bancos instalados à sombra de grandes árvores, localizados na entrada dos centros (ou unidades) de saúde espalhados pelo país.

Faz-se necessário que o candidato ao atendimento responda a um questionário de 14 perguntas, sendo que deve obter o mínimo de 9 pontos. O questionário se denomina Shona Symptoms Questionnaire-14 (SSQ-14).

Em 2016, houve a publicação de um estudo científico na JAMA Network, validando e popularizando a iniciativa.

A ideia espalhou-se para outros países do continente africano como Quênia, Botswana, Malaui e Tanzânia. 

Mais de 600 mulheres idosas já passaram pelo treinamento, espalhando-se por mais de 70 comunidades no Zimbábue. 

Indico ouvir o próprio Chibanda falando da iniciativa neste vídeo do TED Talks.

 

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Curiosidade: nesta Copa do Mundo 2022, foram instalados Bancos da Amizade no Catar, país sede do evento. 

Veja aqui: https://www.who.int/initiatives/sports-and-health/friendship-benches

 

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Mais referências para quem quiser explorar mais:

The Friendship Bench - Centre for Global Mental Health 

No Zimbábue, avós são treinadas para ajudar no combate à depressão


 

 

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Tomar café, subir na laje...

 Uma crônica sobre o que pode ser o cotidiano na Saúde da Família... Se você estiver disposta!

***

Hoje foi dia de retomar o acompanhamento a uma família do território. Saímos para uma visita domiciliar, numa manhã nublada e extremamente abafada.

Aproximar-se desta família é nunca se deparar com o rotineiro ou o ordinário.

De início, o caminho é comum, vielas com escadarias, muitas curvas e sobe-desce, típico de morros. Depois o trajeto se torna uma trilha, pisando no mato e em terra, por caminhos sinuosos de pedras com limo. Muitas árvores avançam sobre a trilha, derramando sombra, folhas e flores pelo chão. A vista é exuberante, mas não se pode deixar de notar a presença de muito lixo, contribuição indesejada de alguns moradores locais.

 

No caminho, nos deparamos com uma massa de trabalhadores uniformizados-alaranjados, cuidando da limpeza do local. À medida em que eles abriam espaço para nossa passagem, entoávamos cadenciada e repetidamente “bom dia”.

Ao chegarmos ao portão da casa, já fomos recebidas pela jovem mulher entusiasticamente. Ao entrar no quintal, logo percebemos um novo habitante, um gato branco e cinza, de olhos amendoados.

Fomos conduzidas à cozinha, como também aconteceu na primeira vez. É um espaço pequeno, mas em que nos sentimos bastante acolhidas. É como estar no coração daquela casa. Lá, tinha uma água para ferver, um bule e um coador. Fomos incluídas no café da família, assim, sem nenhuma cerimônia. Os filhos foram aparecendo e se acomodando entre as mulheres.

A água demorou a ferver e deu tempo de ouvir um tantão de histórias, desde a última vez que a vimos. Ela falou sobre si e os filhos, que haviam acabado de acordar e tentavam se acostumar com nossa presença.

O café foi caprichosamente coado e ela lavou demoradamente os copos antes de nos servir. As visitantes saíram para o quintal, cada uma com seu copo de café fumegando. A anfitriã preferiu nos acomodar ali, um espaço totalmente cercado de verde, com uma vista em que as folhas das árvores parecem pintadas no céu azul.

Tendo o gato por companhia, as visitantes aguardavam. Chamou a atenção uma escada, que não estava ali antes. Feita em madeira rústica, bem larga e sem corrimão, ela estava presa ao piso com cimento e alcançava a laje da casa.

Quando a jovem mulher saiu, nos convidou a subir na laje. Em meio a risadas, subimos vagarosamente. Ela estava animada para nos mostrar o espaço. A vista era de tirar o fôlego. Estávamos envolvidas pela encosta do morro, com sua mata, repleta de árvores das mais variadas espécies, com folhas, flores e frutos se exibindo ao alcance das mãos. Um pica-pau passeava discretamente em um galho. Dava até para esquecer que estávamos no alto de uma casa.

Ela compartilhou como se sente ao subir ali e admirar a vista, explicando o quanto chega perto do céu. Naquele momento, ela relatou que chora e ri naquele refúgio, tendo os astros por testemunha.

A jovem mulher é daquelas que transbordam. Tipo leite fervendo na panela, quando se vira as costas.

 

Descemos e nos acomodamos no quintal. A temperatura era amena, havia uma leve brisa soprando. O café estava no ponto certo a esta altura. O trio se acomodou em cadeiras plásticas para conversar, tendo como ouvinte o gato. Ele nos ignorou por muito tempo e depois se aproximou, tentando em um salto frustrado alcançar a mesa. Miou perto da anfitriã, parecendo exigir mais atenção.

A jovem abriu-se sobre acontecimentos da vida recente. Relatou problemas que atingem muitas mulheres. A criação solitária dos filhos, que obriga, em meio a toda uma sorte de afetos e dilemas, lidar com todas as nuances de pequenos seres em desenvolvimento. Os desafios da inserção no mercado de trabalho e suas armadilhas de exploração e precariedade. Os relacionamentos amorosos com homens indecisos e que não chegam nunca à maturidade, apenas vão juntando anos de idade.

Também nos contou suas conquistas recentes, silenciosas e solitárias, que naquele momento encontraram ouvintes atentas, que genuinamente se alegraram com as novidades.

Pensamos juntas em suas alternativas e como poderíamos ajudar sua família. A delicada arte do cuidado na Saúde da Família, que é pensar esse cuidado junto aos próprios usuários.

Pelo mesmo caminho que percorremos, surgiu um grande cachorro, preto com um toquezinho de branco nas extremidades. Ele veio circular entre a gente, fazendo questão de ser visto. Recebeu uma generosa cota de afagos, parecendo satisfeito.

Em meio à conversa, risadas e goles de café, o tempo parecia suspenso pela calmaria que nos cercava. Mas mais de uma hora havia se passado. Era hora de retornarmos para a rotina, por muitas vezes, sem verde, sem céu.

Na saída, a jovem nos acompanhou pela trilha... Queria ver o resultado da limpeza, explicou. Mas parecia querer prolongar a despedida.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Crônica 2: Quintal grande, coração pequeno

No portão da casa, quem nos recebe é o cachorro, enorme e marrom. Assustador no tamanho, mas amigável na atitude. Ele tem por companhia um cachorro bem menor, que não faz questão de chamar a atenção de quem chega. O terreno é grande, acomoda casas e também uma grande área verde. Tem muita planta. Muita mesmo. Árvores, flores, frutas, cores, aromas e sombras. É um quintal generoso.


Em uma parte do quintal, protegida por um telhado e um muro baixinho, sentada em uma cadeira, está uma idosa. Ela é a dona da casa. Com seus cabelos bem grisalhos, pele muito branca, ela fala um tanto e chora um pouco. Fala mais e algumas lágrimas teimam em verter de seus olhos. Fala mais um tanto. Fala sobre ter com quem falar. Ela quer é prosear.

Queixa-se de solidão, ali sentada, com a paisagem verde exuberante de fundo.

Sua família é bem pequena, ela explica. A mãe faleceu há pouco mais de um ano, pelo que se lembra. Ou seriam dois anos? Era já bem idosa e precisou de muitos cuidados, ofertados pela filha única. Ela conta que viu a mãe morrer, sendo essa despedida muito traumática.

Ainda lhe sobram tios, bem velhinhos, que moram na cidade, contudo não estão perto.

Um único filho ela colocou no mundo. Ele tem uma companheira e uma filha de quatro anos com ela. Eles residem ali mesmo, na casa dela. 

Ainda assim, ele lhe é distante...

Chorando, ela explica que não enxerga mais muita coisa. A catarata lhe levou a visão. Sua dor é depender dos outros para os mínimos afazeres cotidianos, ela revela. E chora.

A nora também chora. Não pediu para cuidar de uma idosa que nem mesmo é a sua mãe. Não tem a obrigação, ela diz.

No último final de semana, o casal e a filha fariam uma pequena viagem. Um respiro e um tempo apenas para eles. Haviam até conseguido quem cuidasse da idosa! Mas o programa de sábado mesmo foi acionar o SAMU para idosa e acompanhá-la ao pronto-socorro. Seu “açúcar no sangue” caiu vertiginosa e misteriosamente. Talvez tenha comido muito pouco antes injetar a insulina, cogita a idosa. Quem sabe?

Há quem diga que foi proposital...

Verdade é que o ressentimento anda solto ali, naquele quintal exuberantemente verde.



quarta-feira, 24 de junho de 2020

Do soutien à máscara





Essa foto foi tirada em meu trajeto casa-trabalho-trabalho-casa.

Os objetos estavam exatamente assim.

Olhei, mirei e passei reto. 
Mas inquietei-me! Por que tinham que estar ali? Lado a lado... Como se colocados?

Decidi tirar uma foto. Demorei a conseguir um bom ângulo, pois o sol ardia forte demais.

E nessa de procurar um ângulo, minha imaginação se ativava cada vez mais. 

Claro que pensei no problema do lixo espalhado na calçada. O desperdício, o desrespeito, a poluição, a contaminação... Mas foi impossível não pensar numa mulher, que talvez tivesse tirado e atirado o soutien. Liberta do soutien, com os seios soltos, saltitantes, andando por aí. 

Transgredindo. (1)

Por que ela tirou a máscara ou o soutien? 

O que ela tirou primeiro?


Quem é essa mulher, meudeus? Cadê ela?

Ela estava saindo de casa ou retornando para casa quando se livrou das peças?


Inspirada nas provocações contidas no texto (2) de Bruno Latour (3), essa imagem me remeteu a duas interrogações...

 

✔ O que deixamos de fazer na pandemia que não nos faz a menor falta?


✔ O que a pandemia nos impôs que não desejamos mais em nossas vidas?


Essa mulher imaginária, ainda em meio à pandemia, já decidiu o que deixar para trás!


Do soutien à máscara, estamos querendo nos livrar do quê?





Cai o muro do cemitério

Ou Crônica de uma segunda-feira chuvosa   Segunda-feira cinzenta e chuvosa. Umidade. Fazia um pouco de frio. No WhatsApp, estava l...