Mostrando postagens com marcador poesia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poesia. Mostrar todas as postagens

domingo, 18 de outubro de 2020

Leia & Leve

Há tempos não escrevo por aqui... Faz parte!

Aprendi com minha experiência pessoal que Educação Permanente em Saúde é basicamente 

INS

        PIRA

                   AÇÃO e DESEJO.


Se não me sentir inspirada e movida por algo "a mais", prefiro não realizar. E se não realizo, não compartilho.

Do quê se trata esse retorno, então?

De poesia. E mulheres.

O Outubro Rosa chegou e ainda enfrentamos uma pandemia (ainda que algumas pessoas tenham se esquecido disso!).

As equipes de Núcleo Ampliado de Saúde da Família (NASF) foram chamadas para apoiar a campanha do Outubro Rosa.

Há muito o que conversar com mulheres. Mas agora não podemos aglomerar as usuárias. E também devemos manter o fluxo das unidades leve e ágil.

O que poderia "parar" essas mulheres, com delicadeza e profundidade?, fiquei me perguntando.

Se fala muito de doenças nessas datas. E tem muita gente competente já fazendo isso. Então, quis contribuir com algo diferente.

Para isso, reativei a ideia do varal, como essa atividade que documentei aqui https://caleidoscopioativar.blogspot.com/2020/07/minha-musica-meus-versos.html

Porém, com poesias feitas por mulheres, exclusivamente. 

Fui coletando poesias... em minhas anotações, na minha Caixa de Ativação ( ver mais aqui https://caleidoscopioativar.blogspot.com/2019/10/bem-vindx-gostaria-que-voce-tirasse-um.html ) e outras mulheres contribuíram generosamente. 

Nesses momentos, o apelo visual importa. E também conta minha vontade em fazer tudo muito caprichado e lidar com materiais de papelaria diversos.

Cada poesia ganhou vida em papel sulfite colorido, impressas em letras de diferentes fontes. Para dar mais firmeza, cada uma foi colada em papel cartão ou cartolina e arrematei com fita de cetim. Seguem os passos do processo...

 

A ideia que fui desenhando era que, para além de ler as poesias no varal, as mulheres pudessem levá-las consigo.

Daí a inspiração para o título da atividade: Leia & Leve.

Prendi cada poesia em barbante, usando durex, deixando bem frouxo, para ficar fácil a retirada. Ficou assim:

 

Na unidade de Saúde da Família, a instalação ficou do lado de fora do prédio, para facilitar a interação das mulheres com as poesias, sem prejudicar o fluxo de atendimento.


Com essa proposta, também ficou mais fácil abordar as mulheres e conversar sobre o conteúdo das poesias que lhe despertavam interesse.

A instalação foi enfeitada com borboletas de feltro e representações de mamas e úteros produzidos com E.V.A., contribuições da equipe de Saúde da Família. 💓

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Manoel de Barros e EPS

"Trata-se de uma reflexão que promove diálogo entre pressupostos da Educação Permanente em Saúde (EPS) e proposições desformadoras do poeta Manoel de Barros..." (Figueiredo et al, 2016)

Assim se inicia o resumo de um artigo que me cativou logo no princípio e com o qual venho trabalhando desde 2018.

Seu título diz Educação Permanente em Saúde e Manoel de Barros: uma Aproximação Desformadora, escrito por Figueiredo, EBL; Gouvea, MV e Silva, ALA, publicado na Revista Brasileira de Educação Médica. [1]

A escolha de Manoel de Barros como representação para a des-formação contida (ou pelo menos intencionada) nos processos de Educação Permanente em Saúde (EPS) foi certeira.

As autoras apresentam um de seus poemas como ponto de partida para a reflexão:

 

As Lições de R.Q.

Aprendi com Rômulo Quiroga (um pintor boliviano):

A expressão reta não sonha.

Não use o traço acostumado.

A força de um artista vem das suas derrotas.

Só a alma atormentada pode trazer para a voz um formato de pássaro.

Arte não tem pensa:

O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.

É preciso transver o mundo.

Isto seja:

Deus deu a forma. Os artistas desformam.

É preciso desformar o mundo:

Tirar da natureza as naturalidades.

Fazer cavalo verde, por exemplo.

Fazer noiva camponesa voar – como em Chagall.

Agora é só puxar o alarme do silêncio que eu saio por aí a desformar.

Até já inventei mulher de 7 peitos pra fazer vaginação comigo.

(Livro sobre nada - Manoel de Barros, 1996) [2]


A partir deste poema, se inicia a "conversa" entre EPS e Manoel de Barros, desenvolvida ao longo do artigo, dividido em quatro categorias: “A expressão reta não sonha. Não use o traço acostumado”; “A força de um artista vem das suas derrotas; só a alma atormentada pode trazer para a voz um formato de pássaro”; “Arte não tem pensa: o olho vê, a lembrança revê e a imaginação transvê” e “É preciso transver o mundo; É preciso desformar o mundo; Agora é só puxar o alarme do silêncio que eu saio por aí a desformar”.

Nas linhas que se seguem, são apresentados conceitos e marcos teóricos da EPS, mas também a beleza e simplicidade da escrita de Manoel de Barros.

Não pretendo revelar tudo que o artigo contém, pois ele merece ser lido e saboreado individualmente.

Esse artigo tem sido um ótimo disparador para discussão e reflexão sobre uma EPS mais sensível, criativa, delicada, libertadora, desconstruída, desafiadora...

Além de um pretexto incrível para acessar, difundir, celebrar a obra de Manoel de Barros!

Então vamos a ele... Segue uma pequena e despretensiosa (inventada?) biografia, construída tendo por base diversas fontes de informação, no intuito de despertar mais curiosidade de quem me lê.

Manoel Wenceslau Leite de Barros, nascido em 19 de dezembro de 1916, em Cuiabá - Mato Grosso. Filho de João e Alice.

Passou a infância em propriedade rural em Corumbá - Mato Grosso do Sul, município considerado porta de entrada para o Pantanal.

Posteriormente, vai para um colégio interno em Campo Grande - Mato Grosso do Sul.

Em 1937, publicou o primeiro livro de poesia, chamado "Poemas concebidos sem pecado". Neste mesmo ano, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde formou-se bacharel em Direito.

Militante do Partido Comunista.

Desiludido.

Viveu na Bolívia, Peru e Nova Iorque.

Na década de 1960, casou-se com Stella Leite da Silva. Stella de Barros, no final das contas. Foram morar em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Tornou-se fazendeiro e criador de gado. E lá se foram 64 anos de união.

Que geraram 3 filhos: Marta, Pedro e João.

Representante da 3ª Geração Modernista, de 1945. Ao mesmo tempo, inclassificável... Sua poesia desafia rótulos e aspirações a padronizações...

Espontâneo. Inspirado na realidade imediata. Natureza e infância como material de criação.

Publicou mais de vinte livros. Vinte e oito livros, contaram algumas fontes.

Agraciado com diversos prêmios ao longo da vida, como o Jabuti, em 1987, por "O guardador de águas". Dizem por aí que foram 13 prêmios. Para mais. Ou para menos.

Perdeu dois filhos.

Faleceu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no dia 13 de novembro de 2014. Seus restos mortais descansam no cemitério Parque das Primaveras.

...

Deixo abaixo um dos desenhos do poeta, feito como parte de seu processo de criação. Esses desenhos eram parte tão importante desse processo, que mereceram uma exposição, a "Ocupação Manoel de Barros", do Itaú Cultural em 2019.

 
Se há algo que vale a pena assistir sobre Manoel de Barros...? 
Essa obra aqui, do diretor Pedro Cezar: Manoel de Barros - Só Dez por Cento é Mentira.

 

[1] https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100-55022016000300324&script=sci_abstract&tlng=pt

[2] https://cs.ufgd.edu.br/download/Livrosobrenada-manoel-de-barros.pdf 


segunda-feira, 6 de julho de 2020

Expressões sob a pandemia

Há meses, em meio à pandemia da COVID-19 e ao aumento de pacientes internados em leitos hospitalares, tem se multiplicado notícias de que médicos e enfermeiros estão utilizando fotos de seus rostos em forma de um crachá para que possam ser “conhecidos” por aqueles a quem prestam cuidado. [1]

Essa é uma dimensão da pandemia que nos remete diretamente às obras de ficção, em que pessoas em “trajes de astronauta” tomavam à frente de todas as ações e decisões, diante de uma crise envolvendo risco biológico (ou alienígena!).

Mesmo fora do ambiente hospitalar, essa realidade do uso obrigatório de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) para os profissionais de saúde tem impactado nas relações com os colegas e usuários dos serviços.

Como superar a barreira da máscara, touca, avental e possibilitar as trocas afetivas no momento do encontro nos serviços de saúde ou nas casas que visitamos?



Essa pandemia tem nos desafiado a reinventar técnicas, expressões e jeitos, tanto nas relações pessoais como profissionais.

Atuando como psicóloga, no SUS, na Atenção Básica especificamente, continuo trabalhando nas unidades, atuando junto a outros profissionais, dando prosseguimento a atendimentos dos usuários e atendendo novos casos também.

Cotidianamente, está posto o desafio de estabelecer conexões para além dos EPI obrigatórios e essenciais para a segurança de todos.

Com as barreiras impostas pela COVID-19, como compensar o distanciamento que se impõe mesmo no momento do encontro? Essa questão se impôs desde o início da pandemia, com seus impactos nas redes de saúde.

O que nos torna humanos no encontro com o outro? A experiência tem me mostrado que é a presença. É o estar ali, naquele exato momento, junto com o outro, para além da mera presença física. Ali e não em outro lugar, em outro tempo, em outra sintonia. É o conviver com as inseguranças e os medos despertados nestes tempos sombrios, para estar com o outro.

O que nos torna reconhecíveis no momento do encontro? São as palavras? Os silêncios? O olhar? O sorriso? A voz? Os gestos? Um crachá?

Cada ida aos serviços, cada diálogo com outros trabalhadores, cada atendimento, cada visita domiciliar tem sido uma experiência única nos últimos meses. E a cada experiência, venho me permitindo experimentar diferentes modos-de-ser-e-estar com o outro, ainda que sob à sombra da pandemia.

A cada encontro, a voz se modulava diferente, os gestos se tornavam mais eloquentes ou recatados, a risada mais solta ou mais comedida, o corpo de inclinava mais ou menos, ora numa reverência, ora num esquivar.

Expandir. Recolher.

Mas estando sempre ali e não em outro lugar...

Por fim, em meio a esses encontros-experimentações, lembrei do pequeno-grande poema que compartilho a seguir...


Para ser grande, sê inteiro: nada

        Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

        No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

        Brilha, porque alta vive.

De Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa, publicado em 1933.

 


[1] https://gauchazh.clicrbs.com.br/saude/noticia/2020/04/hospital-adota-novos-crachas-para-que-pacientes-com-coronavirus-conhecam-rostos-dos-profissionais-de-saude-ck9n48olq0088015n78o3loba.html

https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2020/05/21/profissionais-da-saude-fazem-crachas-humanizados-com-fotos-sorridentes-para-se-aproximar-de-pacientes.ghtml

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Ativação do olhar

Nada melhor para a ativação do olhar do que sermos "convocados" para isso!

Andando pelas ruas no entorno da Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, São Paulo (Capital), me deparei com esta poesia, colada em um muro.



Fiquei muito atraída pela forma, pelas palavras e pelas (im)possibilidades de leituras.

Descobri a autora da poesia pelo Instagram, Mariana Suter, que gentilmente me permitiu a utilização da foto. Encorajo você a visitar o perfil dela no IG, que tem muita coisa boa por lá! 💓
@voz_carmesim

Mas voltando à poesia... Dá uma inquietação, né? Uma vontade de "fechar" um sentido único, formar uma frase e pronto!
Porém, não tem como. A imagem e as palavras forçam um movimento... caleidoscópico, eu diria! Não tem acomodação (im)possível.

Acho essa poesia uma excelente metáfora para a "ativação do olhar", proposta pelo Emerson Elias Merhy. 

Já escrevi sobre isso em post anterior, mas coloco aqui novamente um link para o texto dele:

http://revista.redeunida.org.br/ojs/index.php/rede-unida/article/view/309

...
 
Não posso deixar de também dar os devidos créditos para a Praça Benedito Calixto.
Eita lugarzinho inspirador! 😍

Na praça, todo sábado, das 9 às 19h, acontece uma feira de antiguidades / artesanato, com direito à praça de alimentação, música ao vivo e muitas atividades culturais. O entorno da praça também vale muito a pena. O lugar se tornando cada vez mais agitado e dando oportunidade para muita gente talentosa.


A título de curiosidade, segue a localização da Praça Benedito Calixto.

https://www.google.com/maps/place/Pra%C3%A7a+Benedito+Calixto+-+Pinheiros,+S%C3%A3o+Paulo+-+SP/@-23.558226,-46.6828062,17z/data=!3m1!4b1!4m5!3m4!1s0x94ce579b48152a2f:0xa2d40f47dd19990f!8m2!3d-23.558226!4d-46.6806175

Tem estação de metrô pertinho - Oscar Freire ou Fradique Coutinho, na Linha Amarela.
 

Cai o muro do cemitério

Ou Crônica de uma segunda-feira chuvosa   Segunda-feira cinzenta e chuvosa. Umidade. Fazia um pouco de frio. No WhatsApp, estava l...