Mostrando postagens com marcador Atenção Básica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Atenção Básica. Mostrar todas as postagens

sábado, 21 de maio de 2022

Roda de Conversa em Saúde Mental do Trabalhador

O mês de MAIO é marcado por duas datas importantes e bastante mobilizadoras: o Dia do Trabalhador e o Dia Nacional da Luta Antimanicomial.

Tendo como mote a Saúde Mental do Trabalhador, a pedido de uma das equipes de Saúde da Família apoiadas, comecei a pensar em uma atividade.

Este tema nunca perde a atualidade e, nos últimos tempos, vem ganhando mais e mais destaque.

Neste período de pandemia, muito conhecimento foi produzido e divulgado quanto à saúde mental do trabalhador da saúde, especificamente.

Se antes, já era preocupante o processo de reestruturação produtiva e seus efeitos, as políticas que intensificam a rotina de trabalho, agora soma-se a isso uma sobrecarga (im)previsível para os trabalhadores de saúde.

Propor uma atividade neste tema poderia ir em múltiplas direções. A oferta de ações de cuidado direto ao trabalhador podem ser muito interessantes e benéficas, talvez por isso sejam as mais aplicadas.

Mas não queria fazer nada tão óbvio!

E também queria desconstruir um pouco a ideia de que cabe ao trabalhador, individualmente, se cuidar e "obter / preservar sua saúde mental". Como se fosse apenas isso. Uma escolha pessoal.

Interessava apresentar uma outra leitura, uma outra ótica sobre o tema. Desencadeando outras reflexões, talvez.

Falar com os pares pode ser um desafio, que se apresenta sob diferentes formas e tamanhos. Então, todo preparo não é demais...

Mergulhei em uma busca de material. Pesquisei e li muito, do jeito que eu gosto 💗. Porque é também o meu momento de (des)formação.

Nesta imersão, me deparei com um documento chamado Protocolo de Atenção à Saúde Mental e Trabalho

 


 

Publicado em 2014, envolveu uma parceria entre Secretaria da Saúde do Estado da Bahia, Superintendência de Vigilância e Proteção da Saúde, Diretoria de Vigilância e Atenção à Saúde do Trabalhador e Centro Estadual de Referência em Saúde do Trabalhador.

Essa publicação é reconhecida em artigos como uma iniciativa pioneira para tratar do tema da "Vigilância em Saúde Mental Relacionada ao Trabalho".

"Este Protocolo constitui-se em uma importante ferramenta para o diagnóstico e manejo das principais situações de adoecimento e transtornos mentais relacionados ao trabalho no âmbito da Rede Estadual de Atenção à Saúde do Trabalhador na Bahia (Renast-BA)." (trecho à p. 10)

Ela abarca orientações para a identificação, acolhimento e acompanhamento e notificação de casos, além de descrever ações de Vigilância em Saúde do SUS.

Diante de um material tão completo, se faz necessário um recorte, para tornar a atividade viável.

Na Introdução, à p. 12, se inicia uma interessante discussão sobre o trabalho nos tempos atuais, suas características e consequências para a saúde do trabalhador.  

Selecionei alguns parágrafos da Introdução, que foram transferidos para uma folha de sulfite, em formato de panfleto. A ideia era que cada trabalhador tivesse o material em mãos, para uma leitura conjunta.

 


 

O material foi utilizado em duas ocasiões, com equipes de Saúde da Família, em diferentes territórios.

Ainda acrescentei na última parte do panfleto dicas de vídeos do YouTube para relaxamento e, na segunda ocasião, optei por colocar os contatos de serviços da rede da Secretaria Municipal de Saúde que atendem os trabalhadores.

As conversas renderam bons momentos. É sempre muito bom quando podemos dialogar e refletir coletivamente sobre o próprio trabalho, em sua dimensão individual (porque não o vivenciamos de modo uniforme) e em sua dimensão grupal.

É notório que faltam ao trabalhador tempo e espaço para vivenciar momentos como este. O que pode surgir, espontaneamente, nos surpreende. E também nos toca profundamente. 

Não subestime o que seus colegas carregam silenciosamente...


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

"Que me continua"


 

Essa música, Que me continua, foi apresentada em mais de uma ocasião a trabalhadores da rede de Atenção Básica, em roda de conversa.

Escolhi o formato de móbile pelo movimento a que ele remete. É difícil representar uma música escrita, de modo que desperte o interesse dos participantes em se envolver com o material.

As interpretações que essa música suscita fornecem bons temas de conversa e reflexão em grupo, vencido o estranhamento inicial que seus versos causam... 😊

Particularmente para este post, escolho trazer uma interpretação do trabalhador que remeteu ao trabalho em equipe ao manusear o móbile.

O trabalho em equipe em saúde conta com inúmeras produções, pesquisas, teorias. O aspecto que emergiu para discussão no grupo, na ocasião, foi a autorregulação ou autogestão de que uma equipe de saúde precisa (e é capaz!) para seu funcionamento.

Ainda que no serviço público persista um modelo bastante hierarquizado, com muitas camadas de chefes, diretores, supervisores, gestores, coordenadores e tudo mais, boa parte do cotidiano de trabalho se pauta no “não prescrito”.

Burlar o “prescrito” é inventar respostas no cotidiano para problemas não previstos. É criar soluções não previstas nos protocolos. É lidar com demandas imprevisíveis que o usuário traz. É desviar das muitas faltas e lacunas com as quais o serviço público sofre.

Mas também pode significar perder-se, por vezes. Pode se tornar uma perda de perspectiva em relação ao serviço, ao que são as atribuições do SUS, ao próprio exercício da profissão, ao que a população necessita. E mais...

São muitas as produções científicas sobre o tema. Particularmente, gosto de leituras de Emerson Merhy, Marina Peduzzi e Laura Feuerwerker, que tratam do tema de modo bastante sensível e muito próxima da realidade do trabalho no SUS.

 



*****

Seguem algumas sugestões de leitura, para quem quiser saber mais:

Trabalho em equipe e prática colaborativa na Atenção Primária à Saúde, autoras: Marina Peduzzi e Heloise Fernandes Agreli [1]

Trabalho em equipe: uma revisita ao conceito e a seus desdobramentos no trabalho interprofissional, autores: Marina Peduzzi, Heloise Lima Fernandes Agreli, Jaqueline Alcântara Marcelino da Silva e Helton Saragor de Souza [2]

Dimensões do trabalho interprofissional e práticas colaborativas desenvolvidas em uma unidade básica de saúde, por equipe de Saúde da Família; autores: Patrícia Escalda e Clélia Maria de Sousa Ferreira Parreira [3]

Rede Básica, campo de forças e micropolítica: implicações para a gestão e cuidado em saúde; autores: Emerson Elias Merhy, Laura Camargo Macruz Feuerwerker, Mara Lisiane de Moraes Santos, Debora Cristina Bertussi e Rossana Staevie Baduy [4]

 

 *****

 Que me continua

 

Se ando cheio, me dilua

Se estou no meio, conclua

Se perco o freio, me obstrua

Se me arruinei, reconstrua

 

Se sou um fruto, me roa

Se viro um muro, me rua

Se te machuco, me doa

Se sou futuro, evolua

 

Você que me continua

Você que me continua

Você que me continua

 

Se eu não crescer, me destrua

Se eu obcecar, me distraia

Se me ganhar, distribua

Se me perder, subtraia

 

Se estou no céu, me abençoe

Se eu sou seu, me possua

Se dou um duro, me sue

Se sou tão puro, polua

 

Você que me continua

Você que me continua

Você que me continua

 

Se sou voraz, me sacie

Se for demais, atenue

Se fico atrás, assobie

Se estou em paz, tumultue

 

Se eu agonio, me alivie

Se me entedio, me dê rua

Se te bloqueio, desvie

Se dou recheio, usufrua

 

Você que me continua

Você que me continua

Você que me continua

 

Você que me continua

Você que me continua

Você que me continua

 

Você que me continua

Você que me continua

Você que me continua

 

Compositores: Arnaldo Antunes / Edgard Scandurra

 

Uma música do álbum A Curva da Cintura, de Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra e Toumani Diabaté, lançado em 2011.

 

Para saber mais sobre o álbum, clique aqui

 

Ouça a música AQUI.

 

 ***

[1] https://www.scielo.br/j/icse/a/MR86fMrvpMcJFSR7NNWPbqh/abstract/?lang=pt

[2] https://www.scielo.br/j/tes/a/RLtz36Ng9sNLHknn6hLBQvr/abstract/?lang=pt

[3] https://www.scielo.br/j/icse/a/Kg5M3YCMBKsbkx4QF6DJvJt/abstract/?lang=pt

[4] https://www.scielo.br/j/sdeb/a/RXfnPp73B9Dpcz5pqcVnBdf/abstract/?lang=pt

sexta-feira, 12 de março de 2021

Acolhimento na roda

O que se opõe ao descuido e ao descaso é o cuidado. Cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro. Leonardo Boff 

***

Acolher: a - co - lher. 

Significados:

  • Hospedar ou obter hospedagem; albergar(-se), agasalhar(-se) 
  • Dar crédito a; dar ouvido a; levar em consideração
  • Admitir (alguém) em seu convívio
  • Opor determinado tipo de comportamento a outro; acatar, aceitar, receber
  • Deferir algo (pedido, opinião, requerimento etc.); atender, escutar, ouvir

(De acordo com o Michaelis, https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/acolher/).

 

Mas, especificamente na área da Saúde, do quê estamos falando?

Para o Ministério da Saúde, o "Acolhimento é uma diretriz da Política Nacional de Humanização (PNH), que não tem local nem hora certa para acontecer, nem um profissional específico para fazê-lo: faz parte de todos os encontros do serviço de saúde. O acolhimento é uma postura ética que implica na escuta do usuário em suas queixas, no reconhecimento do seu protagonismo no processo de saúde e adoecimento, e na responsabilização pela resolução, com ativação de redes de compartilhamento de saberes. Acolher é um compromisso de resposta às necessidades dos cidadãos que procuram os serviços de saúde."

Esse tema é sempre muito caro para as políticas públicas da Saúde e sempre rende boas experiências de Educação Permanente em Saúde com as equipes.

Compartilho uma dessas experiências, em que conversamos sobre acolhimento, utilizando trechos de referenciais teóricos.

A seleção dos trechos foi realizada tendo o cuidado em isolar partes curtas e de fácil leitura. A ideia era circular partes do conceito, sem tornar a leitura e escuta entediantes... O importante era o sentido do trecho e sua relação imediata com o cotidiano de trabalho.

Para que todos participassem, os trechos foram colados às cadeiras (no encosto), antes que as pessoas se acomodassem na sala. Não era possível ler com antecedência, pois colei cada tira de papel com o verso em branco à mostra, para não dispersar a atividade.

Fizemos uma rodada de leituras intercaladas com diálogo, em que os participantes podiam expressar ideias, conclusões, interpretações, experiências profissionais e pessoais quanto ao tema.

Alguns trechos selecionados:


Fontes: 

Acolhimento na Atenção Primária à Saúde: revisão integrativa, que pode ser lido aqui

Cadernos de Atenção Básica n. 28 - Vol. I

***

Vou deixar algumas sugestões de material, sem a pretensão de esgotar o tema.

Para quem compõe a Atenção Básica, temos como referência os Cadernos de Atenção Básica n. 28: Volume I - Acolhimento à demanda espontânea e Volume II - Acolhimento à demanda espontânea / Queixas mais comuns na Atenção Básica



 

Também temos a publicação O HumanizaSUS na Atenção Básica, que pode ser lida aqui



Uma série que vale a pena conhecer é a de Cadernos HumanizaSUS, a qual possui os seguintes volumes:

Vol. 1 - Formação e Intervenção

Vol. 2 - Atenção Básica

Vol. 3 - Atenção Hospitalar

Vol. 4 - Humanização do parto e do nascimento

Vol. 5 - Saúde mental

Esses volumes poder ser encontrados no acervo da Rede HumanizaSUS. 


Outra leitura muito interessante e agradável é Acolhimento nas Práticas de Produção de Saúde, que pode ser encontrado aqui



E um artigo com o qual me deparei sem querer e que se mostrou um encanto de leitura foi Política HumanizaSUS: ancorar um navio no espaço. Ele pode ser lido aqui


E, não menos importante, é preciso destacar a Rede HumanizaSUS

Não deixem de conhecer...  https://redehumanizasus.net/

 

 


 

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Interstícios em tempos de pandemia

Conheço uma pessoa muito querida que usa muito a palavra interstício.
Essa palavra me soa bonita. Tem um quê de trava-línguas nela.

Interstício me lembra intervalo, vão...

Há tempos atrás, resolvi procurar pelo seu significado. E encontrei vários. Mas cito esses aqui: "intervalo que separa coisas contíguas ou parte de um todo" e "abertura estreita e longa" [1].

(Ficou curiosx? Faça sua consulta também!)

Então, acho que vivi um interstício entre o dia em que postei "Expressões sob a pandemia" https://caleidoscopioativar.blogspot.com/2020/07/expressoes-sob-pandemia.html e o dia de hoje.

Nem sei se é possível "viver" um interstício. Ou se ele é algo que acontece quando não estamos prestando atenção ao que está acontecendo ao nosso redor.

Mas, enfim, achei que a experiência de hoje valia esse registro.

Hoje pela manhã, realizei uma visita domiciliar. E ali, no primeiro encontro, no quarto, à "beira leito" como dizem na Saúde, tive que me apresentar para alguém, sob a máscara cirúrgica.

Sempre me sinto desconfortável com isso, sempre me desculpo porque nunca acho justo com a pessoa atendida que ela me conheça dessa forma.

Aproveito esses momentos, de incômodo, e reforço que a máscara se trata de um aparato para segurança de todos.

Desta vez, nesta manhã, ensolarada e fresca, essa pequena e singela introdução que tenho feito nos meus encontros com novos usuários, rendeu uma preciosa e inesperada resposta à reflexão contida no meu post "Expressões sob a pandemia".

Foi como a continuação de uma conversa que nem cheguei a travar com essa pessoa...

A resposta dela foi mais ou menos assim: "Já estou acostumada. A gente aprende a conhecer a pessoa pelos olhos... A expressão, se a pessoa está rindo... Tudo pelo olhar".

Lembrei de uma entrevista com Mia Couto [2], que li tempos atrás, em que ele diz "O espaço da poesia sempre foi encontrado nos interstícios..."

Hoje foi minha vez de encontrar essa pequena brecha de poesia em meu cotidiano de trabalho.

Já que falei em Mia Couto, deixo uma pequena frase dele [3], estampada em uma foto que tirei em outra ocasião de andanças nos territórios de morros aqui em Santos.





[3] Extraída do livro O Outro Pé da Sereia, https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=14115
Intervalo que separa coisas contíguas ou partes de um todo

"interstício", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/interst%C3%ADcio [consultado em 28-07-2020].
Intervalo que separa coisas contíguas ou partes de um todo

"interstício", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/interst%C3%ADcio [consultado em 28-07-2020].

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Minha música, meus versos

Torcendo o tempo, volto lá pra 2019 e apresento uma experiência linda, que vivi com o público adolescente, na Atenção Básica.

Recebi um pedido de uma Unidade de Saúde da Família (USF) para fazer uma intervenção em um grupo de adolescentes mantido pela unidade, com encontros mensais. O evento seria em setembro, o mês de prevenção ao suicídio, também conhecido como Setembro Amarelo [1].

Naquele momento, estava bem recente pra mim o trabalho com os móbiles de letras de música, que podem ser vistos aqui https://caleidoscopioativar.blogspot.com/2019/12/o-que-sobrou-do-ceu.html e aqui https://caleidoscopioativar.blogspot.com/2019/10/normal-0-21-false-false-false-pt-br-x.html

Então resolvi adaptar essa ideia para pensar em uma oficina voltada para o público adolescente. Preferi fazer uma atividade mais lúdica, de uma certa leveza, para abordar sentimentos, ideias e o que mais surgisse no encontro, em formato de oficina.

Música. Móbile.

Sons. Versos.

Como tocar os adolescentes com essa atividade?

Brincar com músicas!

O percurso foi mais ou menos assim...

Matutei um tanto.

Pensei em selecionar músicas com letras expressivas, afetivas, provocativas. Brincar com os versos, escolher alguns para imprimir. Colar esses versos-papeis em cartolina, em diferentes formas geométricas, para a montagem de móbiles.

Os adolescentes “escreveriam sua própria música”, juntando os versos do modo que quisessem. Colando e enfeitando o móbile como desejassem.

Expus a ideia na reunião de equipe da USF para abrir para reflexão e sugestões. Neste momento, resolvemos que a equipe selecionaria as músicas e os trechos para a oficina. Também se definiu o nome da oficina, “Compondo minha música”.

No dia marcado, preparamos a sala, pensando em criar um ambiente o mais acolhedor possível.

Na porta, já havia uma pista do que se tratava o encontro...


Juntamos todos os materiais e enfeites que conseguimos: fitas, laços, flores, canetas hidrográficas, tesouras, colas, tintas, pinceis, figuras em E.V.A. Foi um esforço coletivo aqui, com muitas colaborações generosas 🙏. Todo o material ficou esparramado na mesa, de modo convidativo para exploração.


Armamos um varal com as letras completas de cada música, para que os adolescentes pudessem ler e se familiarizar, caso não conhecessem.



Ao fundo, as músicas selecionadas tocaram o tempo todo... 🎶🎵🎶🎵

A composição dos móbiles ficou por conta de cada adolescente, que foi compondo sua própria música.


O diálogo do encontro se deu a partir do pedido para que aqueles que se sentissem confortáveis lessem os seus versos prediletos. A partir dos trechos das músicas, discutimos sentimentos, ideias, medos, possibilidades, sonhos e tudo mais o que cabe num encontro com adolescentes...

Ao final, cada um levou seu móbile.


[1] https://www.setembroamarelo.org.br/

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Experiência e Afeto

Girando o caleidoscópio... chacoalhando a Caixa de Ativação.

Estava eu já desalentada pela falta de oportunidades e brechas para ações de EPS!

Mais uma vez, a pandemia... Por conta dela, atividades em grupo ficaram suspensas.

Os espaços em que costumava propor a EPS, como reuniões de equipe ou grupos de educação em saúde, foram interrompidos.

Suspensão...

Enquanto isso...

No Programa de Residência Multiprofissional em Atenção Primária à Saúde (PRMAPS), da Secretaria Municipal de Saúde onde trabalho, promovemos encontros periódicos entre todos os atores (residentes, preceptores e tutores). Estes encontros, chamados de Compartilhando Experiências, são parte significativa da proposta pedagógica e acontecem desde o início do Programa, em março de 2018. Sempre ocorreram em formato presencial... até a chegada da pandemia e o impedimento de atividades em grupo.

Esta atividade da Residência passou para o formato online em março de 2020, tendo periodicidade quinzenal. Desde então, esse grupo, do qual faço parte no papel de preceptora, vem experimentando certa dificuldade em sustentar a proposta do espaço, em manter sua coesão e em aprofundar os vínculos entre os atores.

Como o espaço traz no nome a palavra “experiência” e os encontros sempre se deram com a circulação de múltiplos afetos, a ideia que começou a ser gestada foi o resgate da proposta original e seus diferenciais.

Mas como promover tudo isso em um encontro que há meses vem ocorrendo de modo virtual? Com um grupo que não teve convivência, em presença, o suficiente para se conhecer, que dirá construir vínculos...

A ideia foi ganhando contorno em momentos de trocas de ideias com outra psicóloga, tutora da Residência, e uma grande parceira 💖.

A parte que me coube foi a reflexão do tema da experiência e é este processo que será relatado.

De onde eu parti... De um monte de interrogações!

Como fazer falar?

Como fazer falar da experiência?

Como compartilhar uma experiência de modo a tocar o outro em uma reunião virtual?

Aprendi que reuniões virtuais com muitos atores podem levar a muitas ilhas de silêncio... (!)

Esta atividade seria desenvolvida em um encontros "menor", contando apenas com tutores e preceptores. Enquanto grupo de trabalhadores, muitos já se conheciam e, mesmo que não, todos têm um “lugar em comum” que é o trabalho na Atenção Básica, na Saúde da Família, especificamente. Matéria-prima não falta, concluí.

Pensei em “cenas”. Pedir relatos de cenas reais, vividas no cotidiano de trabalho, que eles tivessem vontade compartilhar com o grupo.

À certa altura, comecei a pensar que a atividade poderia desembocar num momento um tanto burocrático e mais parecer uma “lição de casa”. Além do quê, nem todos se sentem confortáveis em trabalhar com a escrita ou em pensar numa narrativa.

E, na ideia seguinte, pensei em fotos, que também é um tipo a captura de uma cena.

A partir dessa ideia, decidi cuidar da preparação do encontro, marcado para uma sexta-feira à tarde, por meio de um convite.

 

Considerando que estaríamos numa sexta-feira à tarde, com cerca de 20 trabalhadores da linha de frente de saúde, me preocupava que a atividade transcorresse do modo mais leve possível.

A atividade consistiu em convidar os presentes a relatar a cena ou expor a foto escolhida. A maioria escolheu compartilhar foto, seguida de relato da cena.

As cenas foram muito ricas, detalhadas, vívidas e abordaram temas muito diversos, como histórias vividas com usuários acompanhados, relações com os residentes, possibilidade de formação em serviço, território, grupalidade e muitos outros.

Esse exercício de exposição de fotos e relatos formaria a base da discussão de um sentido possível para a palavra “experiência”. Os referencias teóricos que selecionei foram os artigos Notas sobre a experiência e o saber da experiência, de Jorge Larrosa Bondía [1] e Educação e trabalho em saúde: a importância do saber da experiência, da EPS em Movimento [2].

Em seguida aos relatos, fiz uma breve exposição de três trechos do artigo de Bondía, apenas para complementar aquilo que tínhamos acabado de vivenciar.

E assim foi quando abracei o desafio de promover uma atividade de EPS online, por videoconferência, pela primeira vez.








Cai o muro do cemitério

Ou Crônica de uma segunda-feira chuvosa   Segunda-feira cinzenta e chuvosa. Umidade. Fazia um pouco de frio. No WhatsApp, estava l...