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sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Tomar café, subir na laje...

 Uma crônica sobre o que pode ser o cotidiano na Saúde da Família... Se você estiver disposta!

***

Hoje foi dia de retomar o acompanhamento a uma família do território. Saímos para uma visita domiciliar, numa manhã nublada e extremamente abafada.

Aproximar-se desta família é nunca se deparar com o rotineiro ou o ordinário.

De início, o caminho é comum, vielas com escadarias, muitas curvas e sobe-desce, típico de morros. Depois o trajeto se torna uma trilha, pisando no mato e em terra, por caminhos sinuosos de pedras com limo. Muitas árvores avançam sobre a trilha, derramando sombra, folhas e flores pelo chão. A vista é exuberante, mas não se pode deixar de notar a presença de muito lixo, contribuição indesejada de alguns moradores locais.

 

No caminho, nos deparamos com uma massa de trabalhadores uniformizados-alaranjados, cuidando da limpeza do local. À medida em que eles abriam espaço para nossa passagem, entoávamos cadenciada e repetidamente “bom dia”.

Ao chegarmos ao portão da casa, já fomos recebidas pela jovem mulher entusiasticamente. Ao entrar no quintal, logo percebemos um novo habitante, um gato branco e cinza, de olhos amendoados.

Fomos conduzidas à cozinha, como também aconteceu na primeira vez. É um espaço pequeno, mas em que nos sentimos bastante acolhidas. É como estar no coração daquela casa. Lá, tinha uma água para ferver, um bule e um coador. Fomos incluídas no café da família, assim, sem nenhuma cerimônia. Os filhos foram aparecendo e se acomodando entre as mulheres.

A água demorou a ferver e deu tempo de ouvir um tantão de histórias, desde a última vez que a vimos. Ela falou sobre si e os filhos, que haviam acabado de acordar e tentavam se acostumar com nossa presença.

O café foi caprichosamente coado e ela lavou demoradamente os copos antes de nos servir. As visitantes saíram para o quintal, cada uma com seu copo de café fumegando. A anfitriã preferiu nos acomodar ali, um espaço totalmente cercado de verde, com uma vista em que as folhas das árvores parecem pintadas no céu azul.

Tendo o gato por companhia, as visitantes aguardavam. Chamou a atenção uma escada, que não estava ali antes. Feita em madeira rústica, bem larga e sem corrimão, ela estava presa ao piso com cimento e alcançava a laje da casa.

Quando a jovem mulher saiu, nos convidou a subir na laje. Em meio a risadas, subimos vagarosamente. Ela estava animada para nos mostrar o espaço. A vista era de tirar o fôlego. Estávamos envolvidas pela encosta do morro, com sua mata, repleta de árvores das mais variadas espécies, com folhas, flores e frutos se exibindo ao alcance das mãos. Um pica-pau passeava discretamente em um galho. Dava até para esquecer que estávamos no alto de uma casa.

Ela compartilhou como se sente ao subir ali e admirar a vista, explicando o quanto chega perto do céu. Naquele momento, ela relatou que chora e ri naquele refúgio, tendo os astros por testemunha.

A jovem mulher é daquelas que transbordam. Tipo leite fervendo na panela, quando se vira as costas.

 

Descemos e nos acomodamos no quintal. A temperatura era amena, havia uma leve brisa soprando. O café estava no ponto certo a esta altura. O trio se acomodou em cadeiras plásticas para conversar, tendo como ouvinte o gato. Ele nos ignorou por muito tempo e depois se aproximou, tentando em um salto frustrado alcançar a mesa. Miou perto da anfitriã, parecendo exigir mais atenção.

A jovem abriu-se sobre acontecimentos da vida recente. Relatou problemas que atingem muitas mulheres. A criação solitária dos filhos, que obriga, em meio a toda uma sorte de afetos e dilemas, lidar com todas as nuances de pequenos seres em desenvolvimento. Os desafios da inserção no mercado de trabalho e suas armadilhas de exploração e precariedade. Os relacionamentos amorosos com homens indecisos e que não chegam nunca à maturidade, apenas vão juntando anos de idade.

Também nos contou suas conquistas recentes, silenciosas e solitárias, que naquele momento encontraram ouvintes atentas, que genuinamente se alegraram com as novidades.

Pensamos juntas em suas alternativas e como poderíamos ajudar sua família. A delicada arte do cuidado na Saúde da Família, que é pensar esse cuidado junto aos próprios usuários.

Pelo mesmo caminho que percorremos, surgiu um grande cachorro, preto com um toquezinho de branco nas extremidades. Ele veio circular entre a gente, fazendo questão de ser visto. Recebeu uma generosa cota de afagos, parecendo satisfeito.

Em meio à conversa, risadas e goles de café, o tempo parecia suspenso pela calmaria que nos cercava. Mas mais de uma hora havia se passado. Era hora de retornarmos para a rotina, por muitas vezes, sem verde, sem céu.

Na saída, a jovem nos acompanhou pela trilha... Queria ver o resultado da limpeza, explicou. Mas parecia querer prolongar a despedida.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Crônica 2: Quintal grande, coração pequeno

No portão da casa, quem nos recebe é o cachorro, enorme e marrom. Assustador no tamanho, mas amigável na atitude. Ele tem por companhia um cachorro bem menor, que não faz questão de chamar a atenção de quem chega. O terreno é grande, acomoda casas e também uma grande área verde. Tem muita planta. Muita mesmo. Árvores, flores, frutas, cores, aromas e sombras. É um quintal generoso.


Em uma parte do quintal, protegida por um telhado e um muro baixinho, sentada em uma cadeira, está uma idosa. Ela é a dona da casa. Com seus cabelos bem grisalhos, pele muito branca, ela fala um tanto e chora um pouco. Fala mais e algumas lágrimas teimam em verter de seus olhos. Fala mais um tanto. Fala sobre ter com quem falar. Ela quer é prosear.

Queixa-se de solidão, ali sentada, com a paisagem verde exuberante de fundo.

Sua família é bem pequena, ela explica. A mãe faleceu há pouco mais de um ano, pelo que se lembra. Ou seriam dois anos? Era já bem idosa e precisou de muitos cuidados, ofertados pela filha única. Ela conta que viu a mãe morrer, sendo essa despedida muito traumática.

Ainda lhe sobram tios, bem velhinhos, que moram na cidade, contudo não estão perto.

Um único filho ela colocou no mundo. Ele tem uma companheira e uma filha de quatro anos com ela. Eles residem ali mesmo, na casa dela. 

Ainda assim, ele lhe é distante...

Chorando, ela explica que não enxerga mais muita coisa. A catarata lhe levou a visão. Sua dor é depender dos outros para os mínimos afazeres cotidianos, ela revela. E chora.

A nora também chora. Não pediu para cuidar de uma idosa que nem mesmo é a sua mãe. Não tem a obrigação, ela diz.

No último final de semana, o casal e a filha fariam uma pequena viagem. Um respiro e um tempo apenas para eles. Haviam até conseguido quem cuidasse da idosa! Mas o programa de sábado mesmo foi acionar o SAMU para idosa e acompanhá-la ao pronto-socorro. Seu “açúcar no sangue” caiu vertiginosa e misteriosamente. Talvez tenha comido muito pouco antes injetar a insulina, cogita a idosa. Quem sabe?

Há quem diga que foi proposital...

Verdade é que o ressentimento anda solto ali, naquele quintal exuberantemente verde.



Cai o muro do cemitério

Ou Crônica de uma segunda-feira chuvosa   Segunda-feira cinzenta e chuvosa. Umidade. Fazia um pouco de frio. No WhatsApp, estava l...