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sábado, 24 de setembro de 2022

A FOME

 A FOME

F

O

M

E

 

Fácil é lê-la. O desaFio é falar sobre ela. 

Como uma psicóloga se coloca em um tal deslocamento para um espaço não explorado, em que a f-o-m-e é o tema principal? 

Nada como a poesia para ser veículo deste deslocamento. 

Neste caso, a poesia se traduz em cordel.

E eu me deparei com essa lindeza que vem a seguir, para me apoiar num tema tão difícil e sofrido...

 

A Casa que a Fome Mora

Eu de tanto ouvir falar
Dos danos que a fome faz,
Um dia eu sai atrás
Da casa que ela mora.
Passei mais de uma hora
Rodando numa favela
Por gueto, beco e viela,
Mas voltei desanimado,
Aborrecido e cansado.
Sem ter visto o rosto dela.

Vi a cara da miséria
Zombando da humildade,
Vi a mão da caridade
Num gesto de um mendigo
Que dividiu o abrigo,
A cama e o travesseiro,
Com um velho companheiro
Que estava desempregado,
Vi da fome o resultado,
Mas dela nem o roteiro.

Vi o orgulho ferido
Nos braços da ilusão
Vi pedaços de perdão
Pelos iníquos quebrados,
Vi sonhos despedaçados
Partidos antes da hora,
Vi o amor indo embora,
Vi o tridente da dor,
Mas nem de longe via a cor
Da casa que a fome mora.

Vi num barraco de lona
Um fio de esperança,
Nos olhos de uma criança,
De um pai abandonado,
Primo carnal do pecado,
Irmão dos raios da lua,
Com as costas seminuas
Tatuadas de caliça,
Pedindo um pão de justiça
Do outro lado da rua.

Vi a gula pendurada
No peito da precisão,
Vi a preguiça no chão
Sem ter força de vontade,
Vi o caldo da verdade
Fervendo numa panela
Dizendo: aqui ninguém come!
Ouvi os gritos da fome,
Mas não vi a boca dela.

Passei a noite acordado
Sem saber o que fazer,
Louco, louco pra saber
Onde a fome residia
E por que naquele dia
Ela não foi na favela
E qual o segredo dela,
Quando queria pisava,
Amolecia e Matava
E ninguém matava ela?

No outro dia eu saio
De novo a procura dela,
Mas não naquela favela,
Fui procurar num sobrado
Que tinha do outro lado
Onde morava um sultão.
Quando eu pulei o portão
Eu vi a fome deitada
Em uma rede estirada
No alpendre da mansão.

Eu pensava que a fome
Fosse magricela e feia,
Mas era uma sereia
De corpo espetacular
E quem iria culpar
Aquela linda princesa
De tirar o pão da mesa
Dos subúrbios da cidade
Ou pisar sem piedade
Numa criança indefesa?

Engoli três vezes nada
E perguntei o seu nome
Respondeu-me: sou a fome
Que assola a humanidade,
Ataco vila e cidade,
Deixo o campo moribundo,
Eu não descanso um segundo
Atrofiando e matando,
Me escondendo e zombando
Dos governantes do mundo.

Me alimento das obras
Que são superfaturadas,
Das verbas que são guiadas
Pro bolsos dos marajás
E me escondo por trás
Da fumaça do canhão,
Dos supérfluos da mansão,
Da soma dos desperdícios,
Da queima dos artifícios
Que cega a população

Tenho pavor da justiça
E medo da igualdade,
Me banho na vaidade
Da modelo desnutrida
Da renda mal dividida
Na mão do cheque sem fundo,
Sou pesadelo profundo
Do sonho do bóia fria
E almoço todo dia
Nos cinco estrelas do mundo.

Se vocês continuarem
Me caçando nas favelas,
Nos lamaçais das vielas,
Nunca vão me encontar,
Eu vou continuar
Usando o terno Xadrez,
Metendo a bola da vez,
Atrofiando e matando,
Me escondendo e zombando
Da Burrice de vocês.

 

Créditos: poeta e cordelista Antônio Francisco Teixeira de Melo, de Mossoró - Rio Grande do Norte. Nascido aos 21 de outubro de 1949. Membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel

 


Mais do que ler, vale a pena ouvir.

 

💗💗💗Assista no YouTube a essa declamação aqui: quero me derreter.


Acompanhe as aventuras de Antônio Francisco: SEGUIR.

 

***

NOTA: Uma passagem sobre fome não se traduz em passar fome.

sábado, 21 de maio de 2022

Roda de Conversa em Saúde Mental do Trabalhador

O mês de MAIO é marcado por duas datas importantes e bastante mobilizadoras: o Dia do Trabalhador e o Dia Nacional da Luta Antimanicomial.

Tendo como mote a Saúde Mental do Trabalhador, a pedido de uma das equipes de Saúde da Família apoiadas, comecei a pensar em uma atividade.

Este tema nunca perde a atualidade e, nos últimos tempos, vem ganhando mais e mais destaque.

Neste período de pandemia, muito conhecimento foi produzido e divulgado quanto à saúde mental do trabalhador da saúde, especificamente.

Se antes, já era preocupante o processo de reestruturação produtiva e seus efeitos, as políticas que intensificam a rotina de trabalho, agora soma-se a isso uma sobrecarga (im)previsível para os trabalhadores de saúde.

Propor uma atividade neste tema poderia ir em múltiplas direções. A oferta de ações de cuidado direto ao trabalhador podem ser muito interessantes e benéficas, talvez por isso sejam as mais aplicadas.

Mas não queria fazer nada tão óbvio!

E também queria desconstruir um pouco a ideia de que cabe ao trabalhador, individualmente, se cuidar e "obter / preservar sua saúde mental". Como se fosse apenas isso. Uma escolha pessoal.

Interessava apresentar uma outra leitura, uma outra ótica sobre o tema. Desencadeando outras reflexões, talvez.

Falar com os pares pode ser um desafio, que se apresenta sob diferentes formas e tamanhos. Então, todo preparo não é demais...

Mergulhei em uma busca de material. Pesquisei e li muito, do jeito que eu gosto 💗. Porque é também o meu momento de (des)formação.

Nesta imersão, me deparei com um documento chamado Protocolo de Atenção à Saúde Mental e Trabalho

 


 

Publicado em 2014, envolveu uma parceria entre Secretaria da Saúde do Estado da Bahia, Superintendência de Vigilância e Proteção da Saúde, Diretoria de Vigilância e Atenção à Saúde do Trabalhador e Centro Estadual de Referência em Saúde do Trabalhador.

Essa publicação é reconhecida em artigos como uma iniciativa pioneira para tratar do tema da "Vigilância em Saúde Mental Relacionada ao Trabalho".

"Este Protocolo constitui-se em uma importante ferramenta para o diagnóstico e manejo das principais situações de adoecimento e transtornos mentais relacionados ao trabalho no âmbito da Rede Estadual de Atenção à Saúde do Trabalhador na Bahia (Renast-BA)." (trecho à p. 10)

Ela abarca orientações para a identificação, acolhimento e acompanhamento e notificação de casos, além de descrever ações de Vigilância em Saúde do SUS.

Diante de um material tão completo, se faz necessário um recorte, para tornar a atividade viável.

Na Introdução, à p. 12, se inicia uma interessante discussão sobre o trabalho nos tempos atuais, suas características e consequências para a saúde do trabalhador.  

Selecionei alguns parágrafos da Introdução, que foram transferidos para uma folha de sulfite, em formato de panfleto. A ideia era que cada trabalhador tivesse o material em mãos, para uma leitura conjunta.

 


 

O material foi utilizado em duas ocasiões, com equipes de Saúde da Família, em diferentes territórios.

Ainda acrescentei na última parte do panfleto dicas de vídeos do YouTube para relaxamento e, na segunda ocasião, optei por colocar os contatos de serviços da rede da Secretaria Municipal de Saúde que atendem os trabalhadores.

As conversas renderam bons momentos. É sempre muito bom quando podemos dialogar e refletir coletivamente sobre o próprio trabalho, em sua dimensão individual (porque não o vivenciamos de modo uniforme) e em sua dimensão grupal.

É notório que faltam ao trabalhador tempo e espaço para vivenciar momentos como este. O que pode surgir, espontaneamente, nos surpreende. E também nos toca profundamente. 

Não subestime o que seus colegas carregam silenciosamente...


sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Manoel de Barros e EPS

"Trata-se de uma reflexão que promove diálogo entre pressupostos da Educação Permanente em Saúde (EPS) e proposições desformadoras do poeta Manoel de Barros..." (Figueiredo et al, 2016)

Assim se inicia o resumo de um artigo que me cativou logo no princípio e com o qual venho trabalhando desde 2018.

Seu título diz Educação Permanente em Saúde e Manoel de Barros: uma Aproximação Desformadora, escrito por Figueiredo, EBL; Gouvea, MV e Silva, ALA, publicado na Revista Brasileira de Educação Médica. [1]

A escolha de Manoel de Barros como representação para a des-formação contida (ou pelo menos intencionada) nos processos de Educação Permanente em Saúde (EPS) foi certeira.

As autoras apresentam um de seus poemas como ponto de partida para a reflexão:

 

As Lições de R.Q.

Aprendi com Rômulo Quiroga (um pintor boliviano):

A expressão reta não sonha.

Não use o traço acostumado.

A força de um artista vem das suas derrotas.

Só a alma atormentada pode trazer para a voz um formato de pássaro.

Arte não tem pensa:

O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.

É preciso transver o mundo.

Isto seja:

Deus deu a forma. Os artistas desformam.

É preciso desformar o mundo:

Tirar da natureza as naturalidades.

Fazer cavalo verde, por exemplo.

Fazer noiva camponesa voar – como em Chagall.

Agora é só puxar o alarme do silêncio que eu saio por aí a desformar.

Até já inventei mulher de 7 peitos pra fazer vaginação comigo.

(Livro sobre nada - Manoel de Barros, 1996) [2]


A partir deste poema, se inicia a "conversa" entre EPS e Manoel de Barros, desenvolvida ao longo do artigo, dividido em quatro categorias: “A expressão reta não sonha. Não use o traço acostumado”; “A força de um artista vem das suas derrotas; só a alma atormentada pode trazer para a voz um formato de pássaro”; “Arte não tem pensa: o olho vê, a lembrança revê e a imaginação transvê” e “É preciso transver o mundo; É preciso desformar o mundo; Agora é só puxar o alarme do silêncio que eu saio por aí a desformar”.

Nas linhas que se seguem, são apresentados conceitos e marcos teóricos da EPS, mas também a beleza e simplicidade da escrita de Manoel de Barros.

Não pretendo revelar tudo que o artigo contém, pois ele merece ser lido e saboreado individualmente.

Esse artigo tem sido um ótimo disparador para discussão e reflexão sobre uma EPS mais sensível, criativa, delicada, libertadora, desconstruída, desafiadora...

Além de um pretexto incrível para acessar, difundir, celebrar a obra de Manoel de Barros!

Então vamos a ele... Segue uma pequena e despretensiosa (inventada?) biografia, construída tendo por base diversas fontes de informação, no intuito de despertar mais curiosidade de quem me lê.

Manoel Wenceslau Leite de Barros, nascido em 19 de dezembro de 1916, em Cuiabá - Mato Grosso. Filho de João e Alice.

Passou a infância em propriedade rural em Corumbá - Mato Grosso do Sul, município considerado porta de entrada para o Pantanal.

Posteriormente, vai para um colégio interno em Campo Grande - Mato Grosso do Sul.

Em 1937, publicou o primeiro livro de poesia, chamado "Poemas concebidos sem pecado". Neste mesmo ano, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde formou-se bacharel em Direito.

Militante do Partido Comunista.

Desiludido.

Viveu na Bolívia, Peru e Nova Iorque.

Na década de 1960, casou-se com Stella Leite da Silva. Stella de Barros, no final das contas. Foram morar em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Tornou-se fazendeiro e criador de gado. E lá se foram 64 anos de união.

Que geraram 3 filhos: Marta, Pedro e João.

Representante da 3ª Geração Modernista, de 1945. Ao mesmo tempo, inclassificável... Sua poesia desafia rótulos e aspirações a padronizações...

Espontâneo. Inspirado na realidade imediata. Natureza e infância como material de criação.

Publicou mais de vinte livros. Vinte e oito livros, contaram algumas fontes.

Agraciado com diversos prêmios ao longo da vida, como o Jabuti, em 1987, por "O guardador de águas". Dizem por aí que foram 13 prêmios. Para mais. Ou para menos.

Perdeu dois filhos.

Faleceu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no dia 13 de novembro de 2014. Seus restos mortais descansam no cemitério Parque das Primaveras.

...

Deixo abaixo um dos desenhos do poeta, feito como parte de seu processo de criação. Esses desenhos eram parte tão importante desse processo, que mereceram uma exposição, a "Ocupação Manoel de Barros", do Itaú Cultural em 2019.

 
Se há algo que vale a pena assistir sobre Manoel de Barros...? 
Essa obra aqui, do diretor Pedro Cezar: Manoel de Barros - Só Dez por Cento é Mentira.

 

[1] https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100-55022016000300324&script=sci_abstract&tlng=pt

[2] https://cs.ufgd.edu.br/download/Livrosobrenada-manoel-de-barros.pdf 


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Conversando sobre o próprio trabalho

Nestes tempos de ataque / desmonte da política que rege a Atenção Básica, o NASF (Núcleo Ampliado de Saúde da Família) não saiu ileso. Pelo contrário. Em apenas duas canetadas foi desmontado, pelo menos em termos de política / financiamento.

Em uma (estranha?) sintonia, uma das equipes de Saúde da Família (eSF) que apoio havia solicitado por uma formação sobre "matriciamento", antes de todo esse retrocesso.

Verbete "re-tro-ces-so", substantivo masculino, no dicionário Michaelis - 6 primeiras definições:

1 Ato ou efeito de retroceder; retrocessão.
2 Movimento para trás; recuo, retirada.
3 Retorno à época passada, especialmente na memória.
4 Volta a um estado ou condição anterior.
5 Destruição gradual de algo (sociedade, sistema, instituição etc.); decadência.
6 Retorno a uma condição, situação, estado etc. considerados ultrapassados.


Aproveitei a oportunidade para falar sobre apoio matricial, na intenção de demonstrar que a expressão "matriciamento", que tanto utilizamos na nossa rede, é apenas uma denominação para o "matriciamento em saúde mental". Mas o apoio matricial extrapola este momento em que nos reunimos com representantes dos serviços de saúde mental.

Então, era sobre falar sobre meu próprio trabalho... O que nunca é demais! 

Porque, em minha experiência, falar sobre o que se faz coloca em perspectiva esse "fazer". Circular e compartilhar sobre a própria prática esclarece e enriquece o fazer. Fortalecemos algumas certezas e duvidamos de outras. Ouvimos. Refletimos. Mudamos. 

É também sobre "ativação do olhar". É uma Educação Permanente em Saúde. 

Para cumprir tal intento, recorri às raízes, digo, aos Cadernos de Atenção Básica, disponíveis na internet. Aqui ó: https://aps.saude.gov.br/biblioteca/index 
(Consultem e baixem enquanto podem!)

Como conversar com eSF diversas sobre algo que está "no papel", estático e perfeitinho? Sendo alguém extremamente visual, escolhi algo interativo, com pequenos trechos de leitura, para esmiuçar e dialogar sobre o que está "na teoria".

Nesta experiência, a atividade foi realizada três vezes, com eSF diferentes, as quais reagiram e interagiram de diferentes modos. O que me dá o que pensar... Mas isso é outra dobra da experiência!

Iniciei o encontro solicitando que os participantes falassem o que lhes vinha à mente quando pensavam sobre atividades do NASF. Enquanto eles respondiam, eu anotava em uma pedaço de flipchart, que ficava no meio da roda, na mesa ou no chão (😄), para que todos fossem lendo.

 

Em seguida, comecei a trabalhar com o material que havia produzido para circular entre os participantes.





As tarjetas mostravam trechos do Cadernos de Atenção Básica n. 39, que se referem à conceituação de NASF e de apoio matricial - fotos 1 e 2 da sequência.

O material e a conversa convergiram para um aspecto mais prático previsto nesta atividade, que era apoiar as equipes na potencialização das "reuniões de matriciamento". A terceira foto aí em cima mostra como foi apresentada uma sugestão de um roteiro para se pensar os casos selecionados para o matriciamento.

O que escolho destacar desta experiência é que foi possível (e produtivo demais!) estimular os participantes a dialogar sobre o NASF. Eles perguntaram muitas coisas, solicitaram ações específicas do NASF, tiveram ideias sobre o que mais poderíamos propor, tiraram dúvidas.

E ouvir tudo isso disparou muita reflexão sobre o meu próprio fazer e as relações que vão se constituindo no mundo do trabalho, de diversos modos, e que se abrem para infinitas possibilidades.





Cai o muro do cemitério

Ou Crônica de uma segunda-feira chuvosa   Segunda-feira cinzenta e chuvosa. Umidade. Fazia um pouco de frio. No WhatsApp, estava l...