sábado, 26 de novembro de 2022

Uma experiência entre mulheres...

 

MARIAS.

Vale conferir este POST AQUI...

 




 

Uma roda entre mulheres e para mulheres, que seria sobre violência doméstica, inicialmente.

Mas se tornou um momento de compartilhamento entre mulheres diversas, umas dividindo, outras apenas ouvindo.

Circulação da palavra.

Mediação se mostrou uma palavra-chave aqui. Temperar as participações de todas.

Mulheres sentadas no chão, em pufes ou em tapetes de EVA. Pernas cruzadas ou esticadas. Mulheres juntas no chão.

Muitos relatos e muitas intersecções. Estranhamentos e identificações. Distanciamentos e aproximações.

Relatos que revelam intimidades. Pequenas (?) e casuais violências diárias, escondidas sob fachadas de relacionamentos saudáveis e normatizados. Famílias constituídas e assentadas no casamento de arranjo tradicional. Publicização, via mídias sociais, de felicidades quase inexistentes, talvez inventadas ou esperançadas.

Relatos de mulheres fortes. Radicalizando o discurso e o percurso.

O esforço da mulher de se realizar sem depender de uma figura masculina.

Exemplos.

Um pequeno rosto acompanha o momento todo. Como será que ela absorve todo este diálogo? Estará ela mais protegida e fortalecida em seu futuro?

Essa é uma discussão provocada pelo grupo. O que fazemos pelas crianças de hoje, diante de toda a problematização exposta neste momento? Seremos capazes de alterar esse futuro?

É lembrado que geramos / criamos / educamos / amamos meninas e meninos (se nos ativermos ao cenário binário vigente). Então, as mulheres ali reunidas conseguem vislumbrar, ainda que fugazmente, uma esperança para um futuro diferente, talvez.

Do alto do chão.

 

*****

 

Para abordar o Ciclo de Violência , utilizamos esse vídeo curto, de pouco mais de 3 minutos, e bastante didático.

 

sábado, 24 de setembro de 2022

A FOME

 A FOME

F

O

M

E

 

Fácil é lê-la. O desaFio é falar sobre ela. 

Como uma psicóloga se coloca em um tal deslocamento para um espaço não explorado, em que a f-o-m-e é o tema principal? 

Nada como a poesia para ser veículo deste deslocamento. 

Neste caso, a poesia se traduz em cordel.

E eu me deparei com essa lindeza que vem a seguir, para me apoiar num tema tão difícil e sofrido...

 

A Casa que a Fome Mora

Eu de tanto ouvir falar
Dos danos que a fome faz,
Um dia eu sai atrás
Da casa que ela mora.
Passei mais de uma hora
Rodando numa favela
Por gueto, beco e viela,
Mas voltei desanimado,
Aborrecido e cansado.
Sem ter visto o rosto dela.

Vi a cara da miséria
Zombando da humildade,
Vi a mão da caridade
Num gesto de um mendigo
Que dividiu o abrigo,
A cama e o travesseiro,
Com um velho companheiro
Que estava desempregado,
Vi da fome o resultado,
Mas dela nem o roteiro.

Vi o orgulho ferido
Nos braços da ilusão
Vi pedaços de perdão
Pelos iníquos quebrados,
Vi sonhos despedaçados
Partidos antes da hora,
Vi o amor indo embora,
Vi o tridente da dor,
Mas nem de longe via a cor
Da casa que a fome mora.

Vi num barraco de lona
Um fio de esperança,
Nos olhos de uma criança,
De um pai abandonado,
Primo carnal do pecado,
Irmão dos raios da lua,
Com as costas seminuas
Tatuadas de caliça,
Pedindo um pão de justiça
Do outro lado da rua.

Vi a gula pendurada
No peito da precisão,
Vi a preguiça no chão
Sem ter força de vontade,
Vi o caldo da verdade
Fervendo numa panela
Dizendo: aqui ninguém come!
Ouvi os gritos da fome,
Mas não vi a boca dela.

Passei a noite acordado
Sem saber o que fazer,
Louco, louco pra saber
Onde a fome residia
E por que naquele dia
Ela não foi na favela
E qual o segredo dela,
Quando queria pisava,
Amolecia e Matava
E ninguém matava ela?

No outro dia eu saio
De novo a procura dela,
Mas não naquela favela,
Fui procurar num sobrado
Que tinha do outro lado
Onde morava um sultão.
Quando eu pulei o portão
Eu vi a fome deitada
Em uma rede estirada
No alpendre da mansão.

Eu pensava que a fome
Fosse magricela e feia,
Mas era uma sereia
De corpo espetacular
E quem iria culpar
Aquela linda princesa
De tirar o pão da mesa
Dos subúrbios da cidade
Ou pisar sem piedade
Numa criança indefesa?

Engoli três vezes nada
E perguntei o seu nome
Respondeu-me: sou a fome
Que assola a humanidade,
Ataco vila e cidade,
Deixo o campo moribundo,
Eu não descanso um segundo
Atrofiando e matando,
Me escondendo e zombando
Dos governantes do mundo.

Me alimento das obras
Que são superfaturadas,
Das verbas que são guiadas
Pro bolsos dos marajás
E me escondo por trás
Da fumaça do canhão,
Dos supérfluos da mansão,
Da soma dos desperdícios,
Da queima dos artifícios
Que cega a população

Tenho pavor da justiça
E medo da igualdade,
Me banho na vaidade
Da modelo desnutrida
Da renda mal dividida
Na mão do cheque sem fundo,
Sou pesadelo profundo
Do sonho do bóia fria
E almoço todo dia
Nos cinco estrelas do mundo.

Se vocês continuarem
Me caçando nas favelas,
Nos lamaçais das vielas,
Nunca vão me encontar,
Eu vou continuar
Usando o terno Xadrez,
Metendo a bola da vez,
Atrofiando e matando,
Me escondendo e zombando
Da Burrice de vocês.

 

Créditos: poeta e cordelista Antônio Francisco Teixeira de Melo, de Mossoró - Rio Grande do Norte. Nascido aos 21 de outubro de 1949. Membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel

 


Mais do que ler, vale a pena ouvir.

 

💗💗💗Assista no YouTube a essa declamação aqui: quero me derreter.


Acompanhe as aventuras de Antônio Francisco: SEGUIR.

 

***

NOTA: Uma passagem sobre fome não se traduz em passar fome.

sábado, 21 de maio de 2022

Roda de Conversa em Saúde Mental do Trabalhador

O mês de MAIO é marcado por duas datas importantes e bastante mobilizadoras: o Dia do Trabalhador e o Dia Nacional da Luta Antimanicomial.

Tendo como mote a Saúde Mental do Trabalhador, a pedido de uma das equipes de Saúde da Família apoiadas, comecei a pensar em uma atividade.

Este tema nunca perde a atualidade e, nos últimos tempos, vem ganhando mais e mais destaque.

Neste período de pandemia, muito conhecimento foi produzido e divulgado quanto à saúde mental do trabalhador da saúde, especificamente.

Se antes, já era preocupante o processo de reestruturação produtiva e seus efeitos, as políticas que intensificam a rotina de trabalho, agora soma-se a isso uma sobrecarga (im)previsível para os trabalhadores de saúde.

Propor uma atividade neste tema poderia ir em múltiplas direções. A oferta de ações de cuidado direto ao trabalhador podem ser muito interessantes e benéficas, talvez por isso sejam as mais aplicadas.

Mas não queria fazer nada tão óbvio!

E também queria desconstruir um pouco a ideia de que cabe ao trabalhador, individualmente, se cuidar e "obter / preservar sua saúde mental". Como se fosse apenas isso. Uma escolha pessoal.

Interessava apresentar uma outra leitura, uma outra ótica sobre o tema. Desencadeando outras reflexões, talvez.

Falar com os pares pode ser um desafio, que se apresenta sob diferentes formas e tamanhos. Então, todo preparo não é demais...

Mergulhei em uma busca de material. Pesquisei e li muito, do jeito que eu gosto 💗. Porque é também o meu momento de (des)formação.

Nesta imersão, me deparei com um documento chamado Protocolo de Atenção à Saúde Mental e Trabalho

 


 

Publicado em 2014, envolveu uma parceria entre Secretaria da Saúde do Estado da Bahia, Superintendência de Vigilância e Proteção da Saúde, Diretoria de Vigilância e Atenção à Saúde do Trabalhador e Centro Estadual de Referência em Saúde do Trabalhador.

Essa publicação é reconhecida em artigos como uma iniciativa pioneira para tratar do tema da "Vigilância em Saúde Mental Relacionada ao Trabalho".

"Este Protocolo constitui-se em uma importante ferramenta para o diagnóstico e manejo das principais situações de adoecimento e transtornos mentais relacionados ao trabalho no âmbito da Rede Estadual de Atenção à Saúde do Trabalhador na Bahia (Renast-BA)." (trecho à p. 10)

Ela abarca orientações para a identificação, acolhimento e acompanhamento e notificação de casos, além de descrever ações de Vigilância em Saúde do SUS.

Diante de um material tão completo, se faz necessário um recorte, para tornar a atividade viável.

Na Introdução, à p. 12, se inicia uma interessante discussão sobre o trabalho nos tempos atuais, suas características e consequências para a saúde do trabalhador.  

Selecionei alguns parágrafos da Introdução, que foram transferidos para uma folha de sulfite, em formato de panfleto. A ideia era que cada trabalhador tivesse o material em mãos, para uma leitura conjunta.

 


 

O material foi utilizado em duas ocasiões, com equipes de Saúde da Família, em diferentes territórios.

Ainda acrescentei na última parte do panfleto dicas de vídeos do YouTube para relaxamento e, na segunda ocasião, optei por colocar os contatos de serviços da rede da Secretaria Municipal de Saúde que atendem os trabalhadores.

As conversas renderam bons momentos. É sempre muito bom quando podemos dialogar e refletir coletivamente sobre o próprio trabalho, em sua dimensão individual (porque não o vivenciamos de modo uniforme) e em sua dimensão grupal.

É notório que faltam ao trabalhador tempo e espaço para vivenciar momentos como este. O que pode surgir, espontaneamente, nos surpreende. E também nos toca profundamente. 

Não subestime o que seus colegas carregam silenciosamente...


sábado, 9 de abril de 2022

Jamboard: a lousa digital

O Jamboard, da Google, é definido como "quadro branco digital e interativo", pela própria corporação. Não se trata de uma novidade exatamente, visto que foi lançado em 2016.

Esse recurso faz parte das contas do Gmail, bastando portanto ter uma conta e acessá-lo. 

Você pode atribuir um título ao quadro e encaminhar um convite, no formato de link, para edição colaborativa.

É possível fazer uma edição mais clean e certinha como essa:

 

 
Ou algo mais espontâneo, misturando diferentes recursos do Jamboard...


 
 
É possível fazer o download da lousa, como fiz acima, salvar e compartilhar como você desejar.

Nestes tempos de ensino remoto, essa ferramenta se mostra uma opção "bem boa": lúdica, acessível, interativa, gratuita.

Minha experiência usando o Jamboard foi em uma aula que juntou alunos de duas instituições diferentes, que residiam em diferentes municípios. Mesmo assim, foi possível ter esse momento de interação e construção coletiva, reunindo impressões dos alunos sobre uma temática específica lançada naquela aula.

Importante: é possível utilizar a partir do aparelho de celular!
 

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Para saber mais:

Google Jamboard: aprenda como usar na sala de aula

O que é e como usar o Jamboard no celular

Google Jamboard: o quadro interativo para a sua sala de aula 

terça-feira, 5 de abril de 2022

Fala, mulher - Dia Internacional das Mulheres

Essa data anual [1] sempre suscita demanda por ações específicas junto à população. 

Infelizmente, na Saúde, ainda nos prendemos em abordar doenças ou problemas mais comuns que acometem as meninas e mulheres adultas ou idosas.

Neste ano, a encomenda foi por uma ação junto às mulheres que estariam em uma das Unidades de Saúde da Família em que presto apoio, em uma sexta-feira. Seria um dia dedicado a atividades voltadas para este público, individuais e coletivas.

Pensei em uma roda de conversa, sempre como alternativa para fugir das tais "palestras", sobre as quais tenho minhas reservas.

Para batizar a atividade, "Fala, mulher - diálogos entre mulheres do Valongo" foi o que me veio à mente, após um período de matutação (feito de matutar) [2]. A ideia era colocar as usuárias na centralidade da ação, já que é comum que a profissional de saúde "detenha" a palavra.

De início, pensei em sondar as mulheres que estariam circulando na unidade nos dias que antecederam a atividade sobre o quê elas gostariam de falar.

Contando com o apoio da equipe, um quadro foi montado por uma Agente Comunitária de Saúde na entrada da unidade, para que elas escrevessem suas sugestões.


A equipe da unidade se empenhou na divulgação das atividades do dia, via redes sociais e aplicativos de mensagens.



Pouco antes, fui coletar as sugestões colocadas no quadro. E, mais uma vez, o tema da violência doméstica foi o mais mencionado. Deste modo, organizei a ação nesta temática.

Chegou o dia...

Preparamos a sala com antecedência. Pensando que as poesias de Ryane Leão [3] seriam bons disparadores para esse encontro. Lendo o livro "Tudo nela brilha e queima" [4], selecionei poesias que poderiam remeter a situações de violência doméstica e/ou relações abusivas.



 

Tudo pronto! E a roda de conversa com as usuárias não decolou.

Após participarem de uma atividade longa, as usuárias dispersaram. Algumas precisavam ir embora mesmo, por conta de afazeres domésticos ou rotina de trabalho. Outras tinham também consultas individuais agendadas na unidade.

Não foi exatamente uma surpresa. E já havia me preparado para esse plot twist imprevisto. 😲

Havia separado vídeos para aquecer o diálogo. Alguns deles, pensando na população que atendemos naquele território. Outros, na equipe que ali trabalha.

E daí alterei o script minutos antes da ação. E se formou uma roda de conversa com trabalhadoras e trabalhadores, no tema da violência doméstica, mas em outra perspectiva.

Reuniram-se cerca de 14 pessoas na sala, de diferentes profissões. Contudo, vale destacar que a maioria eram Agentes Comunitários de Saúde.

O encontro começou pela exibição do vídeo A mudança do lugar da mulher na sociedade [5], com a Professora Belinda Mandelbaum [6], da Casa do Saber. O vídeo é curto (8 minutos), leve, com linguagem acessível e se mostrou um ótimo disparador para a conversa.

Nem passei o vídeo até o final porque ele abre muitas possibilidades / ideias. Em resumo, 1 hora de atividade foi pouco para o diálogo. O tema se desdobrou em muitas discussões sobre violência, emancipação, gênero, cultura e muito mais.

 

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[1] leia mais sobre a data aqui

[2] do verbo matutar - veja no dicionário

[3] para (começar a) conhecer um pouco de Ryane Leão 

[4] para comprar o livro (uma sugestão) 

[5] assista A mudança do lugar da mulher na sociedade

[6] saiba mais sobre a Professora Belinda Mandelbaum

 

 



Cai o muro do cemitério

Ou Crônica de uma segunda-feira chuvosa   Segunda-feira cinzenta e chuvosa. Umidade. Fazia um pouco de frio. No WhatsApp, estava l...